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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sobre corrupção na ditadura

Muita gente reclama da quantidade de corrupção atual, que nunca se falou tanto em corrupção etc, mas claro que agora se vê muita corrupção, o que, ao contrário do que muitos pensam, é bom. Agora se investiga, se expõe. Em governos anteriores pouco era investigado, pouco era exposto.

Quer saber quando a corrupção corria solta e ninguém falava nada, mas todos sabiam? Na ditadura militar. Por que? Existia medo de ser preso e torturado, de ser fichado como subversivo, de desaparecer etc. A repressão foi grande aliada da corrupção.

Esta é uma lista de exemplos de como rolavam as histórias de corrupção de boca em boca.

  • Se o seu carro fosse rebocado, nem adiantava ir lá buscar, pois iria achar o seu carro todo depenado. Os próprios funcionários do DETRAN faziam isto.
  • Durante a campanha eleitoral de 1982 apareceu uma construtora falando de fazer obras de asfaltamento em duas ruas em Vaz Lobo, um bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Alguns operários trabalharam na rua, mas sumiram depois da eleição. Quando os moradores foram cobrar o asfalto da rua, depois das eleições, descobriram que as ruas constavam como asfaltadas. O que aconteceu realmente?
  • A loja do meu pai foi assaltada, e quando foi fazer queixa na polícia os policiais pediram dinheiro para prender o assaltante.
  • Policiais que faziam batidas em favelas costumavam roubar coisas dos moradores de lá. Por isto que o Brizola impôs limites nas ações policiais. Existiam histórias que policiais resolviam do nada fazer uma "batida" em uma favela, sem ordens superiores, sem ordem da justiça etc. (Aliás, por que a inviolabilidade do lar foi uma das coisas em destaque na constituição de 1988?) E o que aconteceu no primeiro dia do governo Moreira Franco depois do primeiro governo do Brizola? Policiais assassinaram um jovem em uma favela. Deram o azar de não ser o filho de um pobre. Mesmo não sendo mais na ditadura, esta era uma típica atitude da PM da ditadura.
  • Existiam casos de funcionários de delegacia que só entregavam documentos que eram requeridos lá mediante propina, inclusive o ridículo atestado de idoneidade política.
  • No DETRAN você nem precisava fazer prova. Basta pagar a propina. E em alguns casos não adiantava saber dirigir, pois mesmo assim seria reprovado se não pagasse a propina. O DETRAN tenta se livrar deste fantasma até hoje.
  • Lembro de um caso famoso de uma viúva tentando fazer reconhecimento dos policiais que mataram o marido dela na frente dela. Os comandantes deviam saber quem eram os culpados, pois, segundo ela, eles nunca apareceram nas sessões de reconhecimento, e ela falou que viu policiais aparecerem mais de uma vez nas sessões de reconhecimento. E isto foi com a imprensa em cima.

Isto são as coisas que me lembrei agora. Tem muito mais. Ou seja, estamos, com estes escândalos, muito melhor.

E a imprensa era reprimida também. Por exemplo, nem o JB tem o seu acervo inteiro, pois a ditadura tomou o acervo deles. O único lugar que tem o acervo completo é a Biblioteca Nacional. Com a imprensa reprimida, melhor para os corruptos, pois sabiam que não seriam expostos pela imprensa.

Prefiro ver notícias de corrupção do que o faz de conta que que ela não existia do tempo da ditadura.

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