domingo, 10 de maio de 2020

Sobre "cientistas" de estimação dos poderosos e o mais recente caso

Pessoas com interesses econômicos sempre arranjam "cientistas" para criar relatórios e estudos fraudulentos que sejam favoráveis a estes interesses econômicos.

Um grande exemplo atual disto são os "cientistas" negacionistas do aquecimento global que são financiados e usados pelas empresas de petróleo, carvão etc.

As empresas e petróleo e as mineradoras de chumbo tem uma história anterior que é contada no episódio 7 da nova versão de Cosmos. Era quando usavam o Chumbo Tetraetila como aditivo à Gasolina e diziam que era inofensivo ao ambiente. Tinham até um "cientista" de estimação para corroborar o que falavam.

A indústria de cigarros também teve os seus "cientistas" de estimação para dizer que o cigarro não fazia mal, nem causava câncer.
 
Já tivemos os "cientistas" eugenistas dizendo que grupos étnicos eram inferiores, como os judeus, os negros etc, o que atendiam bem aos interesses do nazismo e colonialismo europeu na áfrica, respectivamente.

Na economia isto também acontece, com os "economistas" de estimação dos ricos e do poder econômico, especialmente as correntes neoliberais, que defendem ideias que favorecem os ricos e economicamente poderosos.

E como não poderia faltar, agora surge um "economista" de estimação dos ricos e empresários para dizer que a economia é importante, e traz um "estudo científico" dizendo que a doença não é séria, que os negócios podem voltar a funcionar.
 
Aliás, não é a primeira vez que usam algo para tentar minimizar a crise causada pela Covid-19. A vez anterior era um "medicamento mágico" que iria curar a doença, e usaram como referência um estudo tão ruim que beirava a fraude.

domingo, 26 de abril de 2020

Mais uma Fake News envolvendo a Cloroquina e cia

No meio da direita brasileira existe uma narrativa de que a FDA aprovou a Hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19.

"
ACABOUUUUUUU

Notícia saída agora do forno. Todo mundo torcendo!
Jornalista Elisa Robson escreveu:

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Destrinchando uma manipulação

Não é difícil criar uma manipulação, e muita gente cai nelas facilmente. Quanto mais emotiva e crédula a pessoa, mas facilmente ela cai, especialmente se esta manipulação atende seus preconceitos e suas crenças. Se ainda juntar um bom design, a coisa fica mais eficiente ainda.

Sempre que vejo algo apelando para sentimentos, mais cético eu fico sobre esta coisa. Mas eu sou raro. Poucos pensam assim.

Basta pensar, se apelam simplesmente para as emoções é porque não tem argumentos.

Vejamos a esta imagem.


sábado, 18 de abril de 2020

Depoimento/Desabafo complementado uma discussão sobre segurança pública

Conversando com uma estudiosa de segurança pública muito jovem eu acabei respondendo, em parte concordado com algo que ela falou, em parte expandindo, em parte dando um depoimento e em parte fazendo um desabafo.

Achei que ficou tão bom que merece ser divulgado, então reproduzo abaixo:

Eu sei. Observo a sociedade desde a década de 1970, desde que era criança.

Eu lembro do projeto dos CIEPs, que daria educação em tempo integral, que foi tão criticado pelas elites e pela classe média, pessoas que não gostavam de pobres, Rede Globo etc. Este projeto foi desmantelado.

Lembro de especialistas em segurança elogiando o projeto.

Com CIEPs os pais poderiam trabalhar tranquilamente sabendo que as crianças estavam sendo educadas, bem cuidadas, e não estariam nas ruas. Era um projeto de longo prazo.

E própria organização das cidades é absurda. Os pobres são enxotados para as periferias, para lugares longe, e perdem 3, 4 até 5 horas de transporte por dia, para trabalhar 8 horas e ainda tem uma hora de almoço. Então passam de 12 a 14 horas fora de casa, e chegam exaustos. É difícil ter interação com as crianças.

Muitos casos avós passam um tempo com as crianças, quando eles mesmos não tem que trabalhar para se sustentarem. (Mesmo em casos em que são aposentados, alguns tem que continuar trabalhando para sobreviverem.)

Eu me lembro da Av. Brasil praticamente sem favelas, mas ela favelizou na década de 1990. Ou o pessoal ocupava o lugar e perdia umas 2 horas por dia no transporte, ou morava longe e perdia muito mais.

Aliás, esta época coincide com a tentativa de privatização dos trens urbanos do Rio de Janeiro, que depois foi feita. Nesta época os trens levavam mais de 1 milhão de passageiros por dia, e caiu para uns 400 mil de tanto que foi sabotado.

No final da década de 1970 e na década de 1980 também aconteceram as mortes dos bairros. Os comércios de bairro morreram. Inclusive os cinemas. Praticamente todos os bairros do Rio de Janeiro tinham cinemas, quando não mais de um, e praticamente todos eles fecharam nesta época. Atualmente muitos são igrejas.

Aliás, eu me lembro que em Parada de Lucas tinha um bom restaurante em 1986. Me lembro comer nele. Tinham dois supermercados. Mas já não tinha cinema. Ele já tinha sido até demolido.

Talvez com a formação e expansão de grandes redes varejistas, a concentração do comércio e negócios em alguns bairros, a perda do poder aquisitivo que aconteceu nas décadas de 1970 a 1990 etc, tenha sido mortal para bairros menores, e as oportunidades de trabalho ficaram mais concentradas longe.

Como teve a perda salarial, no poder aquisitivo, e sem planejamento urbano (ou um planejamento com visão de enriquecimento de alguns, e não de justiça social) (muito do planejamento urbano do Rio de Janeiro foi para atender classes média para cima e excluir os mais pobres), os trabalhadores foram sendo expulsos para cada vez mais longe.

Fora que o Brasil se tornou de um país rural para um país intensamente urbano no período da ditadura militar, com grandes migrações para as cidades e poucos programas efetivos de fixação no campo. Boa parte da agricultura no Brasil passou a ser feita em latifúndios, mas ainda assim, boa parte do que comemos no dia a dia é produzido por pequenas e médias propriedades rurais.

As cidades não foram preparadas para receber adequadamente esta migração.

Vemos muitos problemas que foram causados por décadas de falta de planejamento social, ou um planejamento excludente dos mais pobres.

Tem saudosistas da ditadura militar que falam que na ditadura militar não existiam muitos destes problemas. Mas eles existem justamente por causa da ditadura militar, por causa das políticas que foram adotadas nela. Da famosa frase de neoliberais "Vamos aumentar o bolo para depois distribuir.", mas nunca distribuem. Aliás, por isto, e muito mais, que considero o neoliberalismo como uma forma de picaretagem.

Desculpe-me o textão, e por soar como desabafo (e ser) em alguns pontos. Acho que também é um depoimento.

Eu vivi coisas que você não teve chance de viver por causa da sua idade. Talvez fosse bom você saber disto que contei, para saber parte do caminho feito até chegar onde chegamos.

PS: Caracas. Eu me lembro vagamente do interior do cinema de Vaz Lobo, o bairro onde cresci.

terça-feira, 10 de março de 2020

Monstros, Hitler, Suzy, empatia etc

Existem monstros perfeitos? Existem pessoas totalmente monstruosas?

Muitos falam que Adolf Hitler foi um monstro, e eu concordo. Ele fez, e levou uma nação (aliás, mais de uma) a fazer coisas realmente monstruosas. Mas nem ele foi o monstro prefeito, alguém totalmente monstruoso.

O ator Bruno Ganz foi muito criticado pela forma com que ele interpretou Hitler no filme A Queda! As Últimas Horas de Hitler, pois ele mostrou um lado humano de Hitler, personagem histórico que muitos veem como um monstro. Ele interpretou um Hitler monstruosamente humano, e humanamente monstruoso. O Hitler interpretado por ele tinha um lado humano, que poderia ser doce e amigável com as pessoas, especialmente com algumas pessoas, mas que tinha um lado desumano monstruoso e horrível. (O filme começa com ele sendo empático e atencioso com uma candidata a secretária que estava nervosa na entrevista.) O Bruno Ganz fez uma atuação impressionante, sensacional.

O que talvez tenha assustado muita gente é que isto possa acontecer, que ninguém é completamente monstruoso como alguns pensam. Muitas pessoas esperavam que ele interpretasse um Hitler totalmente monstruoso, e não um parecido com o real. Isto seria caricato e irreal.

O outro lado que assusta, e que poucos querem admitir, é que todos são monstros em potencial (Você mesmo que lê este texto, eu, eles etc.). Todos podem ser monstros dependendo da situação, do contexto, de quem seguem etc. E esta interpretação de Hitler deixou isto exposto. Todos tem um monstro em potencial dentro de si.

Este monstro tem que sempre estar sendo questionado, contido, desconstruído, e isto exige um trabalho grande de autocrítica constante, de autovigilância constante, que poucos estão acostumados a fazer. E mesmo assim não há garantias.

Estudar história, especialmente entendendo os processos históricos, ajuda muito nisto, pois dá referências, exemplos e críticas. O trabalho de Hannah Arendt sobre banalização do mal é importante nisto. Como pessoas se tornaram monstros sem se darem conta.

Mas já vi gente alimentando seus próprios monstros, e alimentando uns dos outros, intencionalmente. Isto tem consequências, e não são boas. Em alguns casos por acharem isto divertido.

A empatia é uma das melhores formas de conter seus monstros. É entender e se colocar no lugar dos outros. É entender o sofrimento dos outros. É entender como os outros pensam e agem. E infelizmente a empatia está em baixa. Em alguns parece nem mais existir. E a raiva é uma das coisas que mais anulam a empatia.

E a Suzy? Sim, ela cometeu uma monstruosidade. O crime que ela cometeu é um destes que doem só de imaginar, de imaginar as consequências, de se colocar no lugar da vítima, da sua família etc. Isto se o que dizem que ela cometeu é real. E ela está cumprindo uma longa pena por causa disto, como tem que ser.

Mas ela é um monstro perfeito? Ela é alguém sem sentimento? Duvido. Praticamente ninguém é assim, se é que existe alguém assim. Nem Hitler foi.

Será que ajuda a uma pessoa ser mais humana, mais empática, a entender que cometeu algo errado etc, se a taxarmos de monstro, dizer que não tem salvação, não tem solução? Será que isto não seria incentivo para ela se tornar mais monstruosa ainda, para assumir de vez este papel que jogam nela? Será que não deveria ser mostrado a ela que existe outra opção, outra forma de ser? 

A TV Globo poderia ter evitado toda esta polêmica se selecionasse as entrevistadas pelas fichas criminais, mas isto complicaria o processo de produção, e não estava em pauta. Os crimes delas não estavam em pauta. Poderia ter escolhido presas com penas menores, pois penas mais longas costumam significar crimes sérios. Teria se protegido e protegido a Suzy. Mas esta polêmica deveria ser evitada? Ou deveria ser jogada no ar mesmo? Acho que uma entrevistada com pena longa poderia reforçar a matéria, a pauta.

Quando soube que a Suzy estava a 8 anos sem visitas eu pensei "Pena longa. Deve ter sido algo sério.". Me bateu alguma curiosidade, mas pequena. Achei que não importava. Era alguém que precisava naquela hora de uma manifestação de empatia. De se sentir gente. E acho que foi o mesmo que o Dráuzio Varella pensou.

Se sentir que pode ser gente pode fazer parte de um processo de reintegração na sociedade.

E por que taxá-la como monstro? Por que jogar o seu ódio contra ela, que já está condenada e presa? Do que adianta? Lá atrás falei que o ódio é eficiente para anular a empatia, e que ter empatia é uma forma de evitar que a pessoa se torne um monstro. Será que ao destilar ódio contra ela você estará se transformando em um monstro? Desejar o mal a uma pessoa que fez um mal, e já está sendo penalizada por isto, não estaria te transformando em um monstro? O que você imagina nestas horas de ódio? Monstruosidades?

Crimes sexuais são hediondos, mas tem gente que explora isto incentivando penas hediondas contra estes criminosos. Será que estes incentivadores não estariam alimentando os monstros dentro das pessoas, incentivando também que elas se tornem monstros?

Será que quem diz "bandido bom é bandido morto" já não se tornou um monstro? Não perdeu a sua humanidade desumanizando o outro, rotulando o outro como monstro?

E eu acho que a polêmica realmente deveria ser jogada no ar. Ela serve para discutir, para pensar, e ver o nível de empatia e como as pessoas encaram a situação. Mas também acho que muita gente não está pronta para ela.

PS: Antes que alguns falem, eu não estou defendendo Hitler, nem a Suzy, de seus crimes, e nem comparando ele com ela (Seria uma grande desonestidade intelectual fazer uma comparação direta entre estas duas pessoas.). Estou só tentando entender eles como pessoas, e não taxá-lo simplesmente como monstros, pois acho isto contraproducente. Contraproducente a ponto de ajudar a criar monstros.

terça-feira, 3 de março de 2020

Trabalho informal e epidemias

Um problema da maioria dos trabalhos informais é que as pessoas tem que trabalhar senão não ganha dinheiro para se sustentar.

Um trabalho formal tem licença médica, e a pessoa fica em casa de forma remunerada, sem se preocupar com o seu sustento, em caso de doença.

Em um trabalho formal, com uma quarentena e todos ficando em casa, os patrões podem ter que arcar com estes salários. Pode entrar em um esquema de férias coletivas etc.

Mas imagine o nosso cenário em caso de epidemia.

Segundo uma notícia que li, estamos com cerca de 41% de trabalhadores informais do total da nossa força de trabalho. Imagina uma boa parte destes tendo que ir trabalhar, para ganhar seu sustento, estando doentes. Quanto ajudariam a espalhar uma epidemia.

E ainda, imagina a perda de dinheiro destes trabalhadores informais no caso de uma quarentena geral, ou de fortes recomendações para não sair de casa. Menos gente nos trens, nas ruas etc, menos clientes para os vendedores de rua, menos dinheiro para eles, menos circulação de mercadorias, e lá se vai toda a economia.
Sim, este é um cenário imaginado, mas baseado em uma situação plausível.

Atualização em 06/03/2020:

Acho que um jornalista pensou algo parecido com o que pensei, mas em outro lugar, e assim hoje li esta excelente matéria. O que pensei pode acontecer nos EUA com trabalhos formais.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sobre pessoas sem valor criticando pessoas valorosas

Existem pessoas merdas, sem valor (ou com "valores" muito ruins), que em algum nível, seja conscientemente ou inconscientemente, sabem da sua falta de valor.

De alguma forma estas pessoas tentam parecer que tem mais valor que as outras pessoas. Uma destas formas é depreciar quem tem valor, quem é reconhecido como tendo valor, quem eles invejam etc, e assim não precisam melhorar.

Estas pessoas poderiam tentar melhorar, mas para isto teriam que admitir a sua falta de valor e o orgulho as impede de ver isso. Ainda tem o caso de grupo, de reconhecimento de grupo e o pertencimento a um grupo, que perderiam entre seus iguais se ela evoluísse. Elas perderiam o reconhecimento e o status que tem dentro de seus iguais. Isto se vê entre terraplanistas, e fica claro no documentário sobre Terra Plana no NetFlix. Estas pessoas se sentem valorizadas em seus grupos, por mais erradas estejam, e por mais sem valor que sejam.

Outro meio das pessoas sem valor (ou de valores questionáveis) colocarem valor para si é atribuir a si mesmas um título (Talvez "cidadão de bem" seja um destes.), uma distinção, medalhas etc, e assim se sentem superiores a outras, e até com direitos especiais por isto.

Também faz parte desta auto-valorização e da desvalorização dos outros, a auto-verdade, a pós-verdade, as teorias da conspiração, as mentiras, os delírios etc, pois assim criam uma crença na qual se inserem como heróis, como pessoas superiores etc (Fascismos, especialmente o nazismo com o mito do homem ariano superior, seguiram este caminho.).

O Jair Bolsonaro é um destes casos de pessoa sem valor, que buscou o reconhecimento sendo assim, se tornando o representante das pessoas merdas, com os piores conceitos, com os piores valores, com os piores egos etc, valores que não deveriam existir em uma sociedade saudável.

As redes sociais também ajudaram a estes "excluídos", justamente excluídos por não terem valor ou terem péssimos valores, a se encontrarem, e ainda incentivar o que tem de pior em dentro de si e dos seus semelhantes. Eles se sentiram parte de uma comunidade, se sentiram seguros de alguma forma. Mas isto não quer dizer que ainda se acham valorosos. Assim eles ainda tem a necessidade de atacar e desvalorizar os outros para se sentirem melhores, para se sentirem tendo valor. Para afirmarem o seu valor.

Redes sociais, mesmo informando em suas regras uma proibição ao discursos de ódio, na prática eles toleraram completamente. Grupos racistas, grupos nazistas, discursos de ódio, fake news, ofensas etc, tiveram campo fértil e livre nas redes sociais, e até foram incentivados (intencionalmente ou não), pois dava engajamento, audiência etc. Pessoas com poucos valores acabaram sendo influenciadas por este ambiente tóxico e adotando justamente alguns dos valores ruins propagados nele. Assim as redes sociais aumentaram a quantidade de pessoas com valores ruins. Elas foram redes antissociais em vários aspectos.

Por isto que o Bolsonaro tem um grupo de seguidores tão fiel, pois ele representa estas pessoas de valores ruins, os incentiva, os fazem se sentirem importantes. Ajudou a criar um orgulho da própria estupidez. Ele usou os campos férteis que foram as redes sociais, que ainda são, para pessoas com valores ruins.

Sim, valores são questionáveis. Então o que é um bom valor e um valor ruim? Que valores fazem uma pessoa ser ruim ou boa?

Um parágrafo acima já deve ter dado a dica. Um valor bom é o debate para a troca e evolução de ideias, e não para se sentir melhor do que o outro. É a metodologia científica. É o respeito ao próximo. É o atendimento das necessidades básicas das pessoas. É a empatia. É não acreditar em soluções mágicas, instantâneas e truculentas. É a evolução da sociedade, das pessoas e não se ater a um padrão rígido estabelecido em outras eras, em outra cultura, em outro tempo etc. São valores que aceitem a sua evolução, e evolução da sociedade. Etc.